Real Madrid. A caça à toupeira tem tudo para acabar num buraco


O Real Madrid-Barcelona de há uma semana devia ter sido o clássico menos tenso dos últimos tempos. Era o que se dizia e escrevia na véspera. Quem apostou nisso deu um tiro ao lado – ou pelo menos não esperava que o cérebro de Pepe voltasse a parar, no momento em que pisou a mão…


O Real Madrid-Barcelona de há uma semana devia ter sido o clássico menos tenso dos últimos tempos. Era o que se dizia e escrevia na véspera. Quem apostou nisso deu um tiro ao lado – ou pelo menos não esperava que o cérebro de Pepe voltasse a parar, no momento em que pisou a mão de Lionel Messi. O jogo aqueceu, mas não tanto como os ânimos dos adeptos madridistas, que na bancada ou pela televisão viam o Real perder mais uma vez com o Barça de Pep Guardiola.

A abordagem defensiva de José Mourinho irritou o público mais conservador, que vê nos merengues uma superpotência com obrigação de dominar – sobretudo a jogar no Santiago Bernabéu. O treinador português juntou Pepe, Xabi Alonso e Lass Diarra no meio-campo, deixando o ataque nas mãos de Cristiano Ronaldo, Gonzalo Higuaín e Karim Benzema. Se o jogo até começou bem para o Real, o mesmo não pode dizer-se da forma como acabou. Com 2-1 a favor e a segunda mão a disputar-se em Camp Nou, é difícil acreditar que os catalães deixem fugir a eliminatória.

Pelo meio as duas equipas jogaram para a Liga. E ambas golearam, com resultados iguais (4-1, do Barça em Málaga e do Real ao Athletic Bilbao). De um lado havia paz, com um hat-trick de Messi. Do outro havia uma guerra de sentimentos no estádio. Enquanto os Ultras Sur gritavam por Mourinho, numa manifestação de carinho e apoio, nasceu no Bernabéu um coro de assobios ao treinador. Mou fez sinal à claque de que parasse de entoar o seu nome, mas os ultras não desarmaram. E os outros também continuaram a assobiar.

Nesse mesmo dia, a “Marca” faz manchete com um alegado desentendimento entre Mourinho e os jogadores espanhóis do plantel – os únicos que arriscam bater bolas com o técnico. À cabeça estaria Sergio Ramos, que na zona mista, depois do clássico, pôs parte da culpa da derrota nas mãos de Mou. “Às vezes acerta, outras não.” A discussão teria começado por aí, pelas declarações do defesa espanhol – com Iker Casillas e Xabi Alonso a assistir de perto.

O episódio abriu uma caça à toupeira no Real Madrid. No dia do jogo com o Athletic, Mourinho confrontou os jogadores para tentar perceber por onde teria fugido a informação. Em causa estaria também a união do balneário, com os espanhóis a formar um grupo; os portugueses estariam noutro, tal como os jogadores de outras nacionalidades contratados no plantel. Ontem, na conferência de imprensa, o treinador foi sintético na resposta: “Não promovo clãs.”

Ainda assim, esta foi das frases mais elaboradas de Mourinho perante os jornalistas. A maior parte das respostas foram monossílabos ou pouco mais. Vai ficar no Real Madrid até ganhar a Liga dos Campeões? “Não sei.” Sente que perdeu o apoio dos adeptos? “Não sei, pergunte-lhes a eles.” Acha que as fugas de informação têm como objectivo afastá- -lo do clube? “Não sei nada de fugas.”

A postura fria, calculista, terá sido uma forma de se proteger e de não provocar ainda mais tensão na equipa na véspera de um jogo tão importante. Mas a possível existência de um informador está a ser encarada com muito cuidado no clube. Na segunda-feira, Sergio Ramos não foi visto no treino. Estaria dispensado por motivos pessoais, que na verdade não eram mais nem menos que um encontro com Florentino Pérez. O presidente quis conhecer a versão do jogador cara a cara. E Ramos terá dito ao presidente que não foi ele a pôr cá fora a informação.

Ontem o central espanhol ainda esteve em mais duas frentes. Primeiro, no Twitter, disse que nunca faltou ao respeito a um treinador e que esperava encerrar de imediato o assunto. Depois, no site oficial do clube, ao lado de Casillas, enviou uma mensagem de confiança aos adeptos. “Somos um grupo jovem e esperançoso, mas com grande margem de evolução. A relação com o treinador sempre foi boa. Mourinho é o treinador adequado para este clube e estamos muito contentes por aprender com ele.”

O jogo com o Barcelona vai ser mais um teste a esta união, à capacidade de reacção a um resultado negativo. O Real Madrid pode ser eliminado da Taça do Rei, a única prova que ganhou na época passada, mas tem muito mais a perder. Para já, Mourinho e Florentino têm de travar as fugas de informação no plantel. O mais certo é acabar tudo num buraco, sem confirmações nem certezas quanto à toupeira. Porém, com cinco pontos de vantagem sobre o Barça no campeonato, treinador e presidente não podem deixar que o clima de desconfiança alastre.

Barcelona-Real Madrid, 21h00, Sport TV1