Londres 2012. Americanos, alemães e sarampo a caminho


Entre todos os preparativos que se podem imaginar num país que vai receber os jogos olímpicos (recordem-se os planos de Pequim para modular o clima de forma a que não chovesse durante as principais competições ao ar livre), analisar bilhete a bilhete o tráfego aéreo para perceber que doenças poderão ir na bagagem com os…


Entre todos os preparativos que se podem imaginar num país que vai receber os jogos olímpicos (recordem-se os planos de Pequim para modular o clima de forma a que não chovesse durante as principais competições ao ar livre), analisar bilhete a bilhete o tráfego aéreo para perceber que doenças poderão ir na bagagem com os espectadores pode parecer o cúmulo da organização. É isso que vai acontecer em Londres, disse ontem ao i Kamran Khan, infecciologista no Hospital St. Michael, em Toronto, e fundador do Bio.Diaspora, um projecto multidisciplinar que analisa o tráfego aéreo mundial e prevê implicações ao nível da saúde pública.

As primeiras previsões de agentes infecciosos que poderão chegar a Londres em Julho foram divulgadas ontem num estudo na revista “Lancet”. O trabalho, assinado por Khan, surge no âmbito de um dossiê especial sobre os riscos de saúde em eventos de massa. Outro artigo na mesma publicação, assinado por um especialista da Organização Mundial de Saúde, apela ao reforço da investigação nesta área.

O método de previsão do Bio.Diaspora passa por estudar o histórico de passageiros recebidos num determinado mês – neste caso, Julho em Londres – num período de três anos e perceber em que pontos de origem há surtos activos que poderão trazer problemas ao país anfitrião.

A cerimónia de abertura das Olimpíadas de Londres está marcada para 27 de Julho pelo que a equipa de Khan, embora ainda não tenha trabalhado com dados reais – como os países a que foram vendidos mais bilhetes de acesso à cidade olímpica –, começou já a fazer alguma análise prévia. A partir de dados da Associação de Transporte Aéreo Internacional, para o período de 2007-2009, verificaram desde logo que, em Julho, Londres costuma ter o pico de visitantes do ano, mais 2,5 milhões de visitantes do que em Fevereiro. Depois de cruzarem com a informação epidemiológica disponível, recorrendo por exemplo ao site de monitorização HealthMap, perceberam que sarampo, tuberculose extensivamente resistente ou papeira poderão ser alguns dos problemas a ter em conta no planeamento de assistência médica. O sarampo tem um surto activo em Berlim, de onde podem ser esperados 42 169 passageiros. A papeira voltou a preocupar as autoridades de Nova Iorque, de onde poderão chegar 106 999 passageiros.

“À medida que os jogos olímpicos se aproximam, vamos procurar ter informações acerca de bilhetes vendidos para perceber de onde virão os espectadores”, explica Khan, que tem estado em contacto com a agência de protecção de saúde do Reino Unido. Por exemplo, quando se perceber o número de visitantes portugueses esperados, a equipa da Bio.Diaspora vai perceber que tipo de agentes poderão introduzir no país.

Khan adianta que o modelo já foi testado nos jogos de Inverno em Vancouver e na peregrinação a Meca, em 2009, pouco depois da declaração da primeira pandemia do século (gripe A). A implementação de um sistema de alerta rápido por telemóvel permitiu isolar, pela primeira vez numa peregrinação que junta três milhões de pessoas, 73 casos de gripe A e dois casos suspeitos de dengue hemorrágica.