Fumo branco. Grécia tem novo papa: depois de Papandreou, Papademos


O alívio dos líderes europeus deve ter-se ouvido em Atenas quando as fontes ligadas às negociações entre os socialistas (PASOK) e o partido de centro-direita Nova Democracia (ND) disseram ao canal Skai TV e à agência Reuters que Lucas Papademos, o ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) e antigo governador do Banco da Grécia, é…


O alívio dos líderes europeus deve ter-se ouvido em Atenas quando as fontes ligadas às negociações entre os socialistas (PASOK) e o partido de centro-direita Nova Democracia (ND) disseram ao canal Skai TV e à agência Reuters que Lucas Papademos, o ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) e antigo governador do Banco da Grécia, é o novo primeiro-ministro grego. Mas o suspiro deve ter-se transformado rapidamente em tosse, quando o líder da ND se mostrou indisponível, por uma questão de “dignidade nacional”, para assumir o compromisso escrito, exigido pelo Eurogrupo, de que o país cumprirá escrupulosamente o novo acordo de resgate financeiro de 27 de Outubro.
“Existe dignidade nacional. Já afirmei e expliquei repetidamente por que razão, de maneira a proteger a economia grega e o euro, a implementação das decisões de 27 de Outubro se tornou inevitável. Não permito a ninguém que ponha em causa as minhas declarações”, justificou Antonis Samaras, o líder da ND, através de um comunicado.
Cansados das voltas e reviravoltas da imprevisível política grega, os líderes europeus resolveram exigir um compromisso escrito ao novo governo de unidade nacional, de que o acordo passará no parlamento e será implementado segundo o calendário acordado em Bruxelas, antes de libertar os 8 mil milhões de euros referentes à sexta tranche do primeiro empréstimo, decidido a 2 de Maio.
Ontem, ao princípio do dia, o ainda ministro das Finanças, Evangelos Venizelos, garantira que George Papandreou, primeiro-ministro demissionário, George Provopoulos, governador do Banco da Grécia, Papademos e Samaras e o novo ministro das Finanças assinariam o acordo exigido na segunda-feira por Jean-Claude Juncker, chefe do Eurogrupo. A exigência foi reiterada ontem por Oli Rehn. O comissário europeu dos Assuntos Económicos e Monetários afirmou ser “essencial que o novo governo expresse explícita e inequivocamente por escrito o seu compromisso no que diz respeito a todas as decisões tomadas pelos 17 estados-membros da zona euro a 27 de Outubro”.
Quando lhe foi pedido que comentasse a posição de Samaras, Rehn disse que “deve ficar claro em Atenas que a solidariedade é uma estrada de dois sentidos e esperamos que uma classe política unida assuma a sua quota-parte de responsabilidade”. Ideia que Venizelos transmitira aos seus pares do governo no último conselho de ministros da era Papandreou.

novo governo Lucas Papademos, cuja nomeação, na altura do fecho desta edição, ainda não tinha sido confirmada oficialmente, terá conseguido impor algumas condições para assumir o cargo num governo de unidade nacional que terá pouco mais de 100 dias de vida e será obrigado a aplicar as medidas de austeridade impostas pela zona euro e, ainda por cima, tendo uma comissão de supervisão europeia instalada em Atenas.
Segundo a edição em inglês do diário “Kathimerini”, o ex-vice-presidente do BCE impôs como condição poder escolher alguns dos membros do novo executivo que deverá contar com elementos do PASOK e da ND. Yiannis Stournaras, director do think tank Fundação de Pesquisa Económica e Industrial, deverá ser um dos escolhidos.
Diz o mesmo jornal que Samaras se mostrou muito relutante em aceitar a presença de membros do seu partido no governo, por não querer que a opinião pública grega visse a ND como apoiante das medidas de austeridade impostas pelo plano de resgate financeiro. Isto apesar de os conservadores terem garantido que votarão favoravelmente no parlamento o pacote de resgate de 130 mil milhões de euros para mostrar o seu apoio ao plano.
As negociações entre os dois principais partidos gregos acabaram por demorar mais que o previsto. Depois de na segunda-feira as notícias que chegavam de Atenas darem o acordo de coligação como finalizado, faltando apenas anunciar o nome do novo primeiro-ministro e a composição do executivo, ontem, em vez do anúncio, houve mais uma maratona que chegou até à noite sem a confirmação oficial de Papademos, nem a informação sobre os integrantes do novo executivo.
Certezas, apenas as há sobre como decorrerá o processo: os actuais ministros demitem-se, Papandreou informa o presidente Karolos Papoulias sobre quem é o candidato a suceder-lhe e será o chefe de Estado a anunciar o novo gabinete. Quando? Em princípio amanhã, mas tendo em atenção que se trata da Grécia o melhor é esperar para ver.