Miguel Pinto Luz. “Cavaco Silva utrapassou os limites do bom senso”


Miguel Pinto Luz é candidato à distrital de Lisboa e membro da actual direcção do PSD. No dia 19 vai disputar as eleições com Jorge Roque da Cunha e tem a vantagem de ter o apoio do “aparelho” do partido no distrito de Lisboa. Tem apenas 34 anos e é uma espécie de delfim do…


Miguel Pinto Luz é candidato à distrital de Lisboa e membro da actual direcção do PSD. No dia 19 vai disputar as eleições com Jorge Roque da Cunha e tem a vantagem de ter o apoio do “aparelho” do partido no distrito de Lisboa. Tem apenas 34 anos e é uma espécie de delfim do líder da distrital, Carlos Carreiras, de quem também é vice-presidente na Câmara de Cascais.

Na apresentação da candidatura disse que a lista que apresenta à distrital não é uma lista de barões. Não gosta dos barões do PSD?
O que eu disse foi que esta lista não tem só barões. O PSD sem os barões não sobreviveria. O partido conseguiu ir aos recantos mais ínfimos da população, porque tinha os tais barões e conseguiu sempre capitalizar os homens bons.


Mas essas pessoas perderam peso no PSD.
Penso que sim. As directas tiveram esse efeito. É uma discussão que, mais cedo ou mais tarde, temos de ter. Eu fui dos poucos que votei contra as directas e agora mais do que nunca – olhando para o antes e o depois do partido – não tenho dúvidas nenhumas de que não trouxeram nada de bom.


Deviam acabar?
Não tenho dúvidas. O PSD alinhou numa vaga populista, porque o CDS e o PS adoptaram as directas e o PSD foi a reboque, mas não foi bom para o partido.


O que é que mudou?
As decisões são muito menos pensadas e consolidadas, porque têm a ver com uma grande mistura de interesses e desce-se a níveis que não tem de se descer para tomar decisões políticas.


Foi desde o início apoiante de Passos Coelho. O PSD é hoje um partido menos social-democrata e mais liberal?
Esse espartilho que se quis colocar à liderança do dr. Passos Coelho desde o início é injusta.


Não gosta que se chame liberal a este PSD?
O PSD não é um partido liberal, isso é assumido. Chamar liberal a este tipo de política não faz sentido. O que acontece é que as medidas estão a ser impostas por terceiros e pela força das circunstâncias. Era um caminho inevitável.


O PSD não está a aplicar ideologia nenhuma e limita-se a responder aos compromissos com o exterior. É isso?
Neste momento o país vive uma situação de salvação nacional e as pessoas têm de acordar e ter isto em mente. Não há aqui uma agenda ideológica na apresentação deste tipo de medidas.


O Presidente da República criticou os cortes nos subsídios de férias e de Natal. Compreende estas críticas?
Não, não compreendo. Penso que Portugal – e estou a pensar nos vários presidentes – tem de pensar qual é o papel do Presidente da República, porque há linhas muito complexas que se têm vindo a ultrapassar e há um debate que tem de ser feito a nível nacional. Penso que, numa altura destas, o papel do Presidente é garantir a coesão e garantir que todos estamos a caminhar no mesmo sentido. O Presidente deve alertar para os erros e alertar para caminhos, mas nunca criticar da forma como criticou uma medida que tem a ver directamente com a gestão corrente do país.


O que me está a dizer é que Cavaco Silva excedeu-se e ultrapassou os limites dos seus poderes?
Penso que sim. Pelo menos o que o bom senso ditaria para um Presidente da República nesta altura. Não penso que tenha extravasado formalmente os seus poderes – está dentro da sua latitude de competências – mas penso que, nesta altura, o bom senso ditaria que não seria a atitude a ter e que devia ter tido uma atitude de maior concertação e de juntar e colar o todo nacional.


Acha que teve mais bom senso com o governo de José Sócrates?
Sem dúvida, é um facto.


Há margem para atender aos reparos de Cavaco Silva sobre o orçamento?
Julgo que não, mas o que eu digo é:  apresentem alternativas.  Os partidos que estão representados no parlamento devem apresentar alternativas.


Já viu um vídeo, que anda a circular na internet, em que o primeiro-ministro aparece a condenar o aumento de impostos, a criticar a redução das deduções em sede de IRS ou a dizer que seria um disparate cortar o subsídio de Natal?
Já.


Fez tudo ao contrário…
Acho que os governantes, quando estão na oposição, não têm a fotografia clara e absoluta da realidade do país. Isto deve-se a vários factores, nomeadamente porque as entidades reguladoras se calhar não fazem o seu papel a 100% e, por outro lado, a informação não flui como devia fluir.


Mas é crónico…
Há também um factor eleitoralista. É assim em qualquer democracia do mundo.


Na prática o eleitorado foi enganado ou não?
Na prática fomos todos enganados, porque a realidade é que o buraco é muito maior do que o que se esperava.


Teme que estas medidas levem a uma maior contestação social?
O problema social é fundamental, mas há pessoas com responsabilidades que têm de ser o amortecedor social. Têm de explicar as medidas e fazer chegar à população a razão destas medidas estarem a ser tomadas.


Não estão a ser bem explicadas aos portugueses?
Muitas podem não ter sido e esse amortecedor social tem de existir. O alarme social poderá existir e nós temos de estar preparados para isso. Há pessoas com responsabilidade neste país que têm de funcionar como amortecedores e não como catalisadores do tumulto social, como as declarações que temos ouvido nos últimos dias de pessoas com as mais altas responsabilidades neste país.


Reconhece que as pessoas têm razões para vir para a rua protestar, perante estes cortes que têm sido anunciados?
Todas as pessoas têm razão para protestar. É um direito de cada um de nós. Eu respeito a opinião dos outros e se acham que têm razões para protestar protestem.