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Ex-líder do SIS esteve em jantar para captar investidores para os terrenos da Feira Popular

Ex-líder do SIS esteve em jantar para captar investidores para os terrenos da Feira Popular

01/04/2015 00:00
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Antero Luís, ex-director do Serviço de Informações e Segurança (SIS), foi um dos presentes num jantar na embaixada da República Popular da China, que reuniu empresários chineses, o então presidente do IRN, António Figueiredo, e Jaime Gomes, antigo sócio do ex-ministro Miguel Macedo e também arguido no processo dos vistos gold. O objectivo do jantar era captar investidores para a compra dos terrenos da Feira Popular de Lisboa, em Entrecampos.

No dia do jantar, António Figueiredo ligou para Antero Luís e perguntou: “Já estamos prontos?” O jantar, esclareceu, estava marcado para as 19h30. Antero perguntou onde. Figueiredo respondeu: “Lá, na embaixada.” Apesar de Antero dizer que não sabia, Figueiredo insistiu: “Já tínhamos falado nisso.” Às 19 horas, Antero aparece à porta de casa de Figueiredo. O então presidente do IRN, Antero Luís e o empresário Artur Varum seguem para a embaixada no carro afecto aos serviços do Instituto dos Registos e Notariado. Horácio Pinto, à data líder do SIS, também foi convidado e só não compareceu porque estaria de férias.

O acórdão da Relação de Lisboa que se debruçou sobre as medidas de coacção de um dos arguidos do processo vistos gold, e a que o i teve acesso, diz que existem nos autos indícios de que o antigo chefe das secretas acompanhou “de perto a acção desenvolvida” por António Figueiredo – “revelando manter interesse directo na actividade imobiliária de António Figueiredo” e na actividade desenvolvida por aquele com um empresário angolano chamado Eliseu Bumba “no âmbito da feitura de códigos legislativos”. No primeiro caso, os investigadores concluíram que Antero Luís terá acompanhado Figueiredo, não só em reuniões de investimento na embaixada da China, como em visitas para aquisição de imóveis.

Antero Luís, segundo avançou o “Correio da Manhã” em Novembro, será um dos visados num processo autónomo, nascido da investigação, e que corre no Supremo Tribunal de Justiça. Contactado pelo i, diz que foi convidado para este jantar pelo número 2 da Embaixada da China, “com quem tinha relações institucionais desde o tempo em que era secretário-geral do Sistema de Segurança Interna”. Antero Luís frisa ainda ter ido com Figueiredo, de quem é amigo. E que nesse jantar estariam várias pessoas que não conhecia e membros da embaixada.

Foi António Figueiredo quem teve a iniciativa de sondar qual a possibilidade de adquirir os terrenos da Feira Popular de Lisboa. Para tal, no dia 7 de Agosto, ligou para José Manuel Barbosa, advogado e consultor na Câmara Municipal de Lisboa.

Nesse dia à noite, José Barbosa contou a um indivíduo chamado Bruno Sá que tinha recebido um telefonema de Figueiredo de um número que não era dele, dando conta de que os chineses queriam comprar os terrenos da Feira Popular. José Barbosa disse que não havia ainda avaliações nem decisão de venda mas teria de ser por hasta pública. “E como é que eu faço, e como é que eles fazem?”, perguntou Figueiredo. “Eles estão mesmo muito interessados”, reforçou. Como à data já tinham sido publicadas notícias que davam conta do envolvimento de Figueiredo no caso dos vistos gold, José Barbosa ficou desconfiado e disse sentir-se “muito desconfortável”. Bruno Sá percebeu: “Ainda por cima o gajo faz isso ao telefone!” José Barbosa foi pela mesma linha: “O gajo anda nas intermediações e tem que ganhar alguma coisa com isso”. Bruno Sá recorda que Figueiredo já foi avisado muitas vezes para ter cuidado.

Mais tarde, Bruno Sá deu conta de que Figueiredo o tinha convidado para jantar. E que teria vindo “com uma conversa manhosa, no sentido de arranjar alguma coisa” para si e para os seus amigos. Barbosa riu-se, acrescentando não ter nada a ver “com os esquemas” de António Figueiredo com os chineses, dizendo ter ficado “à rasca” com o telefonema e falando pela primeira vez de valores: a Feira Popular custaria cerca de 130 milhões de euros.

No dia 18 de Agosto, José Barbosa fala com Bruno Sá e diz que Figueiredo lhe continua a ligar. Bruno Sá pergunta-lhe se ele continua com a conversa dos chineses. Barbosa diz que não se mete em cenas e que “quer que o gajo se lixe”. No dia seguinte, Figueiredo envia um sms a José Barbosa dizendo estar à sua espera no IRN. Mais tarde, Barbosa liga a Bruno Sá para dar conta da conversa que tinha tido ao almoço com Figueiredo. O presidente do IRN negara ter qualquer intervenção nos vistos gold e disse que não fazia mais do que Paulo Portas e outros fazem: promover Portugal. Barbosa ter-lhe-á tentado mostrar que não seria credível aparecer um chinês sozinho a querer comprar aqueles terrenos, pois o investimento era enorme e ninguém sabia quem ele era. O objectivo do chinês, contou Figueiredo, seria construir uma torre. Barbosa teve de explicar que não se podem ter torres em Lisboa, o máximo permitido são 16 a 20 andares. Bruno Sá riu-se e perguntou “porque é que o gajo não compra as torres do Colombo”. Figueiredo disse que a embaixada da China estava a acompanhar a situação e muito interessada. José Barbosa sugeriu que se marcasse uma reunião com alguém da Embaixada para apresentar o potencial investidor.

No seguimento desta conversa, Barbosa começou a contactar pessoalmente com Zhu, por intermédio de António Figueiredo. As diligências para angariarem negócios imobiliários em Lisboa culminaram com o jantar na embaixada em que esteve presente Antero Luís.

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