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Dias Lourenço. O camarada João inventou um sorriso para que a PIDE não lhe visse a tortura na cara

Dias Lourenço. O camarada João inventou um sorriso para que a PIDE não lhe visse a tortura na cara

01/04/2015 00:00
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“A gente conhecia Portugal com a geografia das botas”. Foi assim que António Dias Lourenço explicou ao “Avante!” como se fazia trabalho político do PCP no tempo da clandestinidade,  a pé e de bicicleta, por montes e vales em tempos de estradas más. Nesse tempo era o “camarada João”, nome de guerra.
 
Esta semana o PCP comemorou o centenário de um dos seus mais míticos dirigentes. António Dias Lourenço teria feito 100 anos, mas não chegou cá: morreu aos 95 anos, a 7 de Agosto de 2010.
 
Ao evocar Dias Lourenço, Jerónimo de Sousa lembrou a mais espectacular fuga de prisão de que o histórico dirigente do PCP foi protagonista. Estávamos em Dezembro de 1954 e Dias Lourenço estava preso no forte de Peniche, no “segredo”, a pior das celas. Conseguiu que lhe passassem um faca de sapateiro com a qual, lentamente, foi cortando os cobertores para fazer uma corda. E atirou-se ao gelado mar de Peniche em pleno Dezembro. Correram várias coisas ao contrário do que tinha previsto: a corda era excessivamente curta e teve que saltar de uma altura muito maior do que tinha pensado. A maré arrastou-o no sentido contrário da praia. Só hora e meia depois chegou a terra, com hipotermia e exaustão. Foi salvo por pescadores – a quem disse quem era e o que ali fazia – que foram decisivos para que a fuga tivesse sido um sucesso. 
 
Quando chegou o 25 de Abril, António Dias Lourenço estava preso no hospital-prisão de Caxias. E antes da revolução estava a planear outra fuga. Uma vez disse: “O 25 de Abril lixou-me a fuga”. Dessa vez a ideia era vestir-se de mulher e sair pela porta principal no final do horário das visitas, misturando-se com elas. O actor Rogério Paulo já lhe tinha entregue duas perucas, uma loira e outra morena, para compor o disfarce. Mas da segunda vez não foi preciso. Ao todo, António Dias Lourenço esteve preso 17 anos. Cinco em Peniche, de onde saiu atirando-se para o mar, e 12 em Caxias até ser libertado pelo 25 de Abril. Quando Álvaro Cunhal chegou a Lisboa vindo do exílio, António Dias Lourenço já conseguiu ir esperá-lo ao aeroporto.
 
Dias Lourenço nasceu em Vila Franca de Xira em 25 de Março de 1915, filho de uma costureira e de um ferreiro. Foi amigo de infância de Alves Redol. “Muitas vezes quando a maré já estava vazia íamos de barco até uma rocha que ficava um bocadinho fora do Tejo no momento da vazão da maré. Descíamos e íamos apanhar o marisco. Éramos íntimos amigos”, disse Dias Lourenço em 2007 numa entrevista ao jornal “O Mirante”. Com Redol, Dias Lourenço é co-responsável pela popularização do neo-realismo. “O Alves Redol era o principal, mas eu e vários jovens com tendências intelectuais e políticas demos grande impulso a todo esse movimento literário que é conhecido naquela zona”, contou na mesma entrevista. 
Aos 13 anos Dias Lourenço começou a trabalhar, como torneiro mecânico. Aos 17 aderiu ao PCP. “Éramos jovens profundamente ligados à intelectualidade e ao jornalismo. Organizávamos aulas no velho sindicato que funcionava como escola. Chegamos a juntar 50 ou 60 trabalhadores com mulheres. Costureiras e fiadeiras e operários. Aprendi a falar Esperanto para poder dar aulas à malta. Tínhamos muita actividade literária e com forte participação nesses jornais da época. Não só de Vila Franca e do Ribatejo, mas também de Lisboa”.
 
“Ligeiro sorriso constante” Na entrevista que deu ao “Avante!” em 2005 – jornal oficial do PCP de que foi responsável na clandestinidade e director entre 1974 e 1991 – António Dias Lourenço conta como inventou “um sorriso constante” para que os pides não lhe vissem na cara o sofrimento provocado pela tortura. “Eu já sabia que eles gostavam de ver a cara dos presos sob a tortura. E resolvi construir para a minha cara um ligeiro sorriso constante. (…) A mim não me hão-de ver a cara torturada”. E Dias Lourenço sofreu todas as ignomínias da polícia política, dos espancamentos à tortura do sono. Quando o filho António morreu, ainda criança – o maior desgosto da vida de Dias Lourenço – não o deixaram ir ao funeral. 
 
“O facto de estar preso e de não lhe permitirem comparecer no funeral foi uma forma particularmente vil de [a PIDE] procurar quebrar a sua firmeza. Uma vez mais, falharam. A prisão da sua filha Ivone foi igualmente causa de sofrimento. Mas também de orgulho, pela mulher e pela comunista que se tornara”, escreve esta semana o “Avante!” a recordar a memória de Dias Lourenço. 
 
Com Alves Redol, Dias Lourenço inventou os “passeios no Tejo”. “O Redol e eu fazíamos o trajecto entre Vila Franca e o Carregado. Saíamos do barco e íamos petiscar para o campo. Uma gaita! Íamos comer, mas íamos era conversar sobre política. No Tejo não havia ninguém para nos ouvir. Ali ficávamos e ali fazíamos grandes reuniões. Já nas propriedades do Palha Blanco”, contou Dias Lourenço a “O Mirante”. 
 
Assistiu ao nascimento de Alves Redol escritor: “O Redol a certa altura começa a escrever. E um dia em Vila Franca chama-me. Tinha seis folhas de papéis almaço escritas à mão. ‘Olha, quero que tu leias e que me digas se sou capaz de escrever um romance’. Então eu pus-me em sentido, em jeito de brincadeira: ‘Decreto número um, artigo primeiro: Declaro que tu és capaz de fazer um romance’ (Risos). Claro que era capaz de escrever romances, como sabe, fez vários... mas esse era o primeiro. Chamava-se “Glória – uma aldeia do Ribatejo”. 
 
Um dia, em plena ditadura, canta “A Internacional” ao lado de Miguel Torga. “Uma vez eu, o Redol e ele passámos o Tejo para o lado de lá. Tinha acabado a Guerra Civil de Espanha. Estávamos a falar os três sobre o assunto. O Torga, o Redol e eu a certa altura começámos a cantar ‘A Internacional’. A certa altura diz o Torga: ‘Caramba, nunca pensei que alguma vez se pudesse cantar a Internacional alto neste nosso Portugal!”. É claro. Ninguém mais podia ouvir. Senão nós três. Estávamos sozinhos”. Até ao fim, mesmo com a saúde já débil, Dias Lourenço continuou a ir quase todos os dias à sede do PCP.
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