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Gabriel o Pensador. Um disco em doses homeopáticas, com futebol pelo meio

Gabriel o Pensador. Um disco em doses homeopáticas, com futebol pelo meio

01/04/2015 00:00
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Gabriel Contino, de 39 anos, mais conhecido por Gabriel o Pensador, é um habitué em Portugal. Esteve no país há poucos dias, para um concerto na Semana do Enterro em Aveiro, mas voltou para o Brasil por causa de “um compromisso”. Esta semana está de volta para mais cinco concertos, o primeiro amanhã, na Queima das Fitas do Porto. Na terça-feira quer encher o Tivoli, em Lisboa, antes de rumar a Faro e depois aos Açores. Apanhámos o carioca pelo telefone, no meio do check-out do hotel e a caminho do aeroporto. “Sem Crise”, o seu mais recente álbum, é o pretexto para o regresso aos palcos com músicas novas depois de sete anos sem gravar. O futebol está a roubar-lhe tempo.

 

“Sem Crise”, o título da música que dá nome ao álbum, não é muito apropriado para os dias de hoje. É porque o Brasil já não está em crise?

É mais uma metáfora com a crise mundial mas falando da minha vida pessoal. Tinha saído de um divórcio, ficado um tempo sem gravar um disco e a letra fala da minha volta com novidades, “voltando que nem um bumerangue, com a música no sangue”. Na hora de baptizar o álbum serviu por isso mesmo, por falar da minha volta e porque o processo de gravação do disco foi bem diferente dos anteriores. Gravei com a minha própria gravadora, sem um prazo a cumprir e sem aquele stress das horas contadas. Foi mais entre amigos, na hora que dá na telha, sem crise.

É o seu primeiro álbum independente…

Na verdade já tive uma primeira experiência, um disco para crianças com 11 faixas, mas ainda só lançámos quatro numa revista para professores, a “Nova Escola”. É o meu primeiro álbum independente porque terminei o contrato com a Sony e não quisemos renovar. A indústria musical está ruim no Brasil, sem dinheiro, e isso para mim até foi bom porque pude investir mais no meu próprio disco, mais do que eles investiriam. Senti-me melhor por não ter de negociar os custos de cada coisa, de poder escolher o estúdio, investir mais em videoclip…

Gravou até um videoclipe com José Padilha, o realizador de “Tropa de Elite”.

Essa foi curiosa. Escrevi a música [“Nunca Serão”] a partir do primeiro filme. A minha ideia era o Capitão Nascimento enfrentar bandidos da política e não da favela e fiz a música em 2010, antes mesmo do segundo filme estar pronto. Quando o Zé Padilha descobriu isso ficou revoltado comigo. Ele tinha feito o mesmo com o personagem Capitão Nascimento entrando nos crimes políticos e queria ter colocado a música na trilha [banda sonora], que era a cara do filme. Então ele falou para fazermos um clipe e a gente fez o vídeo sem muito compromisso quando o segundo filme já estava pronto.

Foi a primeira música do álbum?

Foi a primeira a estar pronta, mas não foi a primeira a ser lançada. Antes lancei “Pimenta e Sal” para a novela [“Caminho das Índias”], uma coisa isolada. O disco foi feito assim em doses homeopáticas, entre muitas palestras, shows, lançamento de livros e o trabalho com os garotos do futebol, que foi ocupando bem mais tempo do que eu pensava. Foi o primeiro disco em que eu não parei a minha vida em função dele.

Como começou esse projecto com os garotos do futebol, o Pensador Futebol?

No início começou para ajudar o filho de uma pessoa conhecida a fazer testes em clubes internacionais, daí passaram a ser três garotos viajando. Depois me pediram para organizar um jogo com 50 garotos e os pais começaram a pedir ajuda também para os filhos deles. Quando eu vi, tinha contratado um treinador para cuidar de um grupo de jogadores e a coisa foi ficando séria quando começámos a competir. Até criei um alojamento para garotos de fora do Rio. O futebol cresceu bastante no meu dia-a-dia.

Também tem um projecto com o Luís Figo.

Sim, ele me convidou para ser o embaixador no Brasil do Dream Football. Fazemos torneios de duas semanas na favela para dar chance aos garotos de mostrarem talentos. Fizemos isso na Mangueira, no Vidigal e agora no Salgueiro. No fim, os vencedores vão para testes em grandes clubes. Cinco do Vidigal foram para o Inter [de Milão], outros foram para o Fluminense.

Acha que o Mundial de 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016 podem ter sido um bom motivo para a pacificação das favelas?

Nunca tinha pensado na Copa e nas Olimpíadas como um motivo. O governo teve uma atitude muito ousada de enfrentar o tráfico de droga organizado. Foi muito corajoso e conseguiu com as UPPS. O projecto de pacificação das favelas já atingiu 20 pontos estratégicos e ainda faltam muitos mais. Podem ter tido essa motivação a mais… A copa é um evento nacional, mas sim, pode ter sido mais uma força.

Quando é que começou a sua ligação à favela?

Foi na praia. A minha mãe veio da classe média, filha de professora com policial, e eu morei em vários bairros do Rio na minha infância enquanto ela foi progredindo na carreira de jornalista e foi ficando melhor de grana. Quando eu tinha 12 anos a gente foi para São Conrado, que é um bairro de contrastes, com a Rocinha ali ao lado, e foi o surf que me conectou com os amigos da favela que ainda tenho hoje.

Daí a música “Surfista Solitário”, com Jorge Ben?

É. Essa música fala mais do que do esporte, porque para mim o surf trouxe outras coisas boas. Isso foi uma indicação de um amigo que também surfa, que pensou que eu poderia usar essa música do Jorge Ben como um sample. Mas queria usar um trecho mais longo e não só o refrão e achei melhor convidar o Jorge para regravar. É uma música desconhecida dele e ele ficou feliz também por a ressuscitar. Tocou muito no Brasil e foi um excelente cartão de visita para quem estava esperando o álbum.

Também colabora com o Carlinhos Brown em “Foi Não Foi”.

Essa foi uma das mais interessantes. A gente se juntou ainda sem ter um tema, numa espécie de improviso. Começámos só por palavras começadas por F e ele fez aquela parte dele, bem louca. A gente ficou com material suficiente para gravar quase dez músicas de coisas que a gente improvisou no estúdio. Tem um lado bem lúdico de voltar a ser criança e brincar com as palavras, uma característica da música nordestina, da embolada, que eu admiro muito.

Nesta série de concertos vai tocar também músicas antigas?

O show tem algumas músicas do disco novo e muita coisa dos outros álbuns, aquelas que fãs de todas as idades e gerações sabem de cor.

Porque é que gente tão diferente sabe as suas letras de cor?

A minha linguagem e a minha maneira de ver as coisas é muito simples. A clareza das mensagens vale para as pessoas mais instruídas e para as mais simples. Também pela minha formação, de transitar entre as várias classes sociais e as várias tribos culturais desde sempre. Posso só pedir uma coisa? Pode divulgar o meu Facebook? Gabriel O Pensador Oficial. Tenho uns caras que me ajudam mas eu mesmo costumo alimentar a página com fotos de shows e assim, coisas do dia-a-dia.

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