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Museu dos Coches. O landau do regicídio já mudou de casa

Museu dos Coches. O landau do regicídio já mudou de casa

Miguel Branco 24/03/2015 12:58

Começou ontem a transferência dos coches do antigo edifício para o novo, que abre a 23 de Maio. Fomos espreitar o processo.

A pompa exige horários decentes à comunicação social. Há quem se defenda de smoking bem passado para ver se lhe dão a cortesia de ficar à frente na fila, para ver se conseguem o primeiro retrato. Entende-se o estender das plumas que assumem as vezes dos cumprimentos, ora essa, faça favor – não chegou a por quem sois mas não andou longe. Estamos no Picadeiro Real, paredes meias com o Palácio de Belém, morada assinada – mesmo estimada – do Museu Nacional dos Coches desde 1905. Altura em que a rainhaD. Amélia, mulher do rei D. Carlos, fez erguer um tributo ao meio de transporte da corte.

Em vésperas da abertura do novo Museu Nacional dos Coches – que, se nada correr mal, acontecerá a dia 23 de Maio –, a uma rua de distância do antigo, fomos documentar o processo de transferência dos coches, ontem iniciada, processo que deve prolongar-se até ao início de Maio. O feliz premiado é o landau do regicídio, a viatura onde, a 1 de Fevereiro de 1908, D. Carlos e o herdeiro, príncipe Luís Filipe, foram assassinados. Já alguém dizia que o azar de uns é a sorte de outros, e quanto a isso nada a fazer.

Poucos minutos antes das 11h, as portas do antigo museu abrem-se e lá está ele, o landau na sua melhor pose, as rodas vermelhas e o dorso preto. Este coche do final do século xix, produzido pelo fabricante português F. J. Oliveira, é rapidamente envolto por três homens que tratam de o cobrir com um rolo gigante de papel sintético. Eis quando lhes dizem que parem.

Ainda havia gente a tentar posicionar-se e a pressa parecia tanta que se dá um stop, seguido de rewind. Toca de tirar o papel que as fotografias são coisa importante nestes encontros. Nova oportunidade para quem só tinha visto o landau – tratemo--lo assim, afinal quase ficámos amigos – por metade lhe tirar as medidas.

O processo retoma-se e o brilho do coche impressiona, encontra-se em muito bom estado, mas todo o cuidado é pouco – aliás, deve ser por este género de atenções que ainda está tão bem de saúde – e por isso lá vai o papel em torno de tudo, película aderente para que nada fuja com o vento, fita gomada a reforçar, outra fita, fita métrica, para lhe medir a largura antes de entrar no camião que o levará para tão perto.

Uma distância curta que não terá de ser desfeita, já que mesmo com a abertura do novo Museu Nacional dos Coches, a 23 de Maio, este lugar onde nos encontramos não vai desaparecer. “Fica hoje marcado o início da passagem dos coches do antigo para o novo edifício do Museu Nacional dos Coches. Vamos terminar este processo no início de Maio, este museu só vai encerrar em meados de Maio por questões de logística.

Contudo, vai continuar a fazer parte do Museu Nacional dos Coches. Neste lugar vão ficar alguns coches, vai existir um  núcleo  dedicado à rainha D. Amélia, será sempre parte integrante, um complemento do museu”, declara Nuno Vassalo e Silva, director-geral do Património Cultural.

Após ter sido tapado e protegido com todo o rigor, o landau exige que o amontoado de jornalistas se desvie do caminho. Abram alas para o coche, enquanto nós ficamos pela loja de souvenirs do museu –  entre T-shirts, postais e porcelanas –, que é bancada central digna para ver o landau passar com estilo.

O salto seguinte, para a entrada do antigo museu, leva-nos a reiterar tudo o que dissemos antes: isto é uma coisa a sério. Os seis homens carregam-no para o camião entre uma multidão de jornalistas, turistas e simples curiosos, como Manuel Lourenço, lisboeta de 81 anos. “Vi na televisão que ia começar hoje a transferência dos coches. Como tenho vagar e moro aqui perto quis passar para ver, perceber como seria feita a deslocação”, conta.

Ou ainda os turistas, de quem gostaríamos de traduzir os pensamentos enquanto apontavam a câmara para o camião, mas o alemão não é a nossa praia. Ou ainda duas senhoras de idade que nos perguntam quando é que o coche vai sair, com o landau já coberto dentro do camião. “Então e sabe dizer-nos se podemos entrar?”, ainda tentam.Respondemos que se dissessem que eram jornalistas não devia haver problema.

E lá estavam elas na cauda do pelotão que espera pelas declarações de Nuno Vassalo e Silva e de SamuelRego, ex-director da DGArtes e actual subdirector do Património Cultural.

É nessa espécie de conferência de imprensa que Nuno Vassalo e Silva deixa antever alguns detalhes, a fim de aguçar o apetite, a fim de deixar entender que será de 3,3 milhões de euros o orçamento anual do novo museu, que “vai permitir uma experiência diferente, uma relação diferente com cada coche”, diz o director-geral do Património Cultural, antes de adiantar: “Aqui eles estão um tanto sobrepostos, por isso propomos algo diferente ao visitante.

Queremos fazer uma grande festa dia 23 de Maio, associar a população às associações e a todos os que queiram fazer parte.” O convite está feito.

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